Onde a Jurupoca Pia

Março/ 2009

 

Eu não sei o que é uma Jurupoca. Segundo os encarregados de produção é um pássaro que tem um “piado” muito forte. Mas esse animal me foi apresentado num final de tarde, depois de uma reunião com encarregados de produção, onde debatemos um conjunto de atividades que esses líderes tinham de praticar para conseguir de seus operadores uma melhoria na qualidade do produto.

“O pessoal de gerencia e engenharia fica elaborando produtos e processos que não funcionam na hora de produzir. Nessa hora o que vale mesmo é o jeitinho do operador de fazer dar certo”!

Essa frase, acredito eu, que pode ser ouvida na maioria das empresas é o sintomas mais evidente de uma realidade muito comum. É no nível mais operacional que as coisas acontecem. Embora a gerência e os técnicos elaborem estratégias organizacionais de longo prazo, com volumes altos de investimentos, buscando resultados organizacionais de amplo aspecto em diversos mercados, é no nível de operações que essas estratégias acontecem. E, esse é o nível que menos essas pessoas se preocupam em planejar fazer dar certo. É, o texto está certo, “planejar fazer dar certo”. Porque, em organizações de alta performance tudo dá certo de propósito, não por acaso ou sorte.

A grande maioria dos líderes organizacionais age com se nesse nível as coisas acontecessem como num passe de mágica. “Faça-se a venda”! Plim, e a venda de um produto, para um cliente importante se faz. A crença maior é de que vendedores, operadores de máquina, analistas, secretárias, contadores, etc. já vêm prontos de fábrica, não á necessário falar o que deve ser feito nem ficar olhando. Apenas o recrutamento e seleção bem feitos basta para ter profissionais de alto nível.

A realidade se mostra diferente e cobra seu preço. O resultado é a mediocridade. Volume de vendas abaixo do esperado, produtividade que poderia ser melhor, devoluções que não poderiam acontecer, pedidos de desculpas para clientes importantes, nível de estoque descontrolado, etc. E, estratégias corporativas compridas, “em parte”.

O grande trabalho da linha de gestão para aumentar a probabilidade das estratégias darem certo é fechar exatamente esse buraco. Decodificar planos estratégicos em procedimentos operacionais. Principalmente a linha média de gestão. Aquelas pessoas que ouvem de gerentes e técnicos as estratégias a serem implementadas e têm a responsabilidade de transformar isso tudo em ações operacionais específicas.

A primeira tarefa para isso é acreditar que ninguém está pronto por decreto. Todas as pessoas que executarão as atividades operacionais, por mais experientes que sejam em suas funções, precisam de orientação direta adequada, pois as tecnologias mudam, os clientes mudam, os equipamentos mudam, os produtos mudam e, o jeito de fazer as coisas deve mudar também!

Isso posto é preciso decodificar, transformar os documentos técnicos e os planos de ações estratégicas em “receitas” operacionais. Escrever instruções de trabalho em linguagem que o pessoal operacional entenda, transformando termos e operações técnicas em descrições de ações claras e específicas.

Se é necessário prospectar novos mercados para aumentar a participação da empresa, é aconselhável que os gestores de vendedores e especialistas de marketing definam claramente que ações devem ser efetivamente praticadas e quem o fará. O que fazer para achar o cliente, onde ele está, como chegar até ele, como conseguir o primeiro contato, o que dizer nos primeiros contatos, com proceder para entender esse cliente, etc.

Se é necessário reduzir perdas na produção para baixar custos, é necessário que os gestores dos operadores de produção definam claramente, em linguagem objetiva, o que esses operadores precisam efetivamente fazer. Qual é o processo operacional, definido pela engenharia como mais correto, a ser seguido, como observar acertos e erros, como distinguir as peças boas das ruins, o que fazer em caso mau funcionamento do equipamento, o que fazer em caso de detecção de produto defeituoso, como registrar suas ações e seus resultados.

Parece óbvio, mas não é! Em muitas organizações os profissionais operacionais são colocados para exercerem tarefas sem o detalhamento das especificações necessárias para essa execução, não sabem com certeza o que é esperado deles realmente. E são eles que produzem os resultados que gerente e diretores prometem para os acionistas e para si mesmos.

Verifique, pesquise isso em sua organização, vá a um profissional operacional e faças perguntas sobre seu trabalho: Como você faz para um cliente ter vontade de comprar nosso produto? O que você faz quando a máquina falha?

Você ficará surpreso(a)!

Sei que muitos acreditam que um profissional bem informado dá conta do recado. Mas não é o que tenho visto. É absolutamente necessário que, além de deixar claro o que deve ser feito, esse primeiro nível de liderança acompanhe continuamente os profissionais em operação.  Observe as ações em execução, veja a utilização de equipamentos e materiais, ouça as dificuldades, as ideias e sugestões, analise tudo em relação ao que é esperado e proporcione novas orientações, feedback e suporte. Tudo em tempo real.

Muitas pessoas, infelizmente, não gostam de números, principalmente quando eles avaliam performance, mas…

É necessário medir e deixar bem à vista os resultados das operações, para que gestores e operadores tenham clareza sobre até que ponto estão praticando os comportamentos que constroem os resultados desejados ou não. Podendo fazer ajustes em tempo mais curto, rapidamente, sem stress, e aumentar a probabilidade de conseguir o que desejam.

Resumindo, é absolutamente necessário fortalecer as atividades da primeira linha de gestão, por meio de orientações e acompanhamento contínuo,  se desejamos construir, realmente, culturas organizacionais capazes de crescer continuamente, principalmente em se tratando de um ambiente em forte dinâmica de transformações.

Pense nisso!

 

Lauter F. Ferreira
Psicólogo CRP-06/09138-0
Autor do livro: “Construindo Equipes de Alta Performance”
Ayres & Ferreira Ltda.
A Ciência do Comportamento Aplicada – Pessoas e Organizações
lauterferreira@ayreseferreira.com.br
www.ayreseferreira.com.br