14/08/2026
Tecnicamente, o desamparo é um padrão de comportamento no qual a pessoa se sente impotente, frustrada e apática diante de uma situação na qual nada do que faz produz uma consequência satisfatória. Aos poucos, ela se torna silenciosa, retraída e, em alguns casos, isolada.
Imagina que você acorda de madrugada sentindo fortes dores abdominais. Você ingere um desses remédios conhecidos, que você julga vai curar sua dor, mas não consegue dormir, e pela manhã sua dor não só ainda está lá como piorou. Sua esposa pega você quase que a força, coloca no carro e o leva ao pronto socorro. Vocês fazem toda a papelada do convênio na recepção e se sentam esperando ser chamado. Quinze, vinte minutos se passam, sua dor está lá e nada de médico. Seu batimento cardíaco aumenta, surge um suor nos braços e você se encaminha para a recepcionista suplicado pelo atendimento, mas ela, sem olhar para você, lhe fala que é assim mesmo, há uma fila a ser respeitada e você deve se sentar e esperar. Você volta para seu lugar, caminha vagarosamente, braços largados ao longo do corpo, cabeça baixa e frustrado. De repente uma pessoa vestindo jaleco brando aparece no corredor. Você se levanta, caminha em direção a ela já falando de seu caso, mas ela chama outro paciente e nem escuta sua reivindicação. Novamente você volta para seu lugar mais frustrado e revoltado ainda, senta-se e espera. Você está desamparado!
Situações como a que descrevi acima são comuns em nosso dia a dia. Com certeza você deve passar por situações como essa ao menos uma vez em um dia. Quem já ficou parado em um congestionamento na Via Marginal do Rio Tietê em São Paulo, apressado para chegar ao trabalho ou a um compromisso importante, sabe o que é desamparo em sua realidade mais crua… Não há nada que possa ser feito!?!?
Quando essas situações são temporárias e se findam em poucos minutos esse padrão de desamparo se dissipa pela ação natural de nosso mecanismo de equilíbrio emocional conhecido como parassimpático. Mas quando essas situações se repetem muitas vezes e por um período muito prolongado, por muitos dias, o sistema parassimpático não consegue reverter a descarga hormonal e química provocando desgastes biológicos e comportamentais. Esse indivíduo passa a apresentar sinais como gastrites, pressão alterada etc. Se torna apático, desinteressado da vida, acreditando que não serve para nada, letárgico, dorme muito e recusa a companhia de outras pessoas. Depressivo!
Exemplo disso ocorre muitas vezes em organizações onde pessoas muito qualificadas, que trabalham com dedicação e comprometimento, acreditam que seus resultados são muito bons, porém, dificilmente recebem informações claras e objetivas a esse respeito, muito menos orientações sobre como melhorar sua performance. São lideradas por gestores autoritários que reúnem sua equipe apenas para falar erros e desperdícios de forma generalizada e sem uma orientação para melhorias futuras. Desenvolvem pensamentos improdutivos, procuram se ausentar sempre que possível, evitam sugerir melhorias e fogem, sempre que o gestor ameaça passar por perto. Situação incontrolável, já que esse gestor não aceita e rechaça qualquer inciativa de seus subordinados em promover melhorias. Se comportando dessa forma evitam o contato com esse gestor, o que reforça seu comportamento de fuga. Incorporando comportamentos depressivos! O que Martin Seligman chama de depressão aprendida!
Mas há solução… O comportamento é extremamente plástico, ele se modifica a cada segundo de vida.
Submetidos a situações de desamparo excessivo as pessoas vão alterando seus raciocínios, suas emoções e, com isso seus comportamentos.
Como no exemplo que citei, algumas começam a pensar que são muito competentes e podem ser mais uteis e felizes em outro lugar. Mesmo sentindo-se frustradas começam a procurar outro trabalho, em outra equipe ou organização e, vão embora! Atitudes que lhes proporcionam resultados desejado e sensações de autocontrole e felicidade. Outras desenvolvem raciocínios depressivos, acreditam que é assim mesmo em todo lugar, que não possuem qualificações melhores, desenvolvem doenças biológicas variadas, faltam com regularidade e caem em um processo depressivo que muitas vezes se torna fatal, vêm apenas doenças e ameaças em seu futuro.
Como o comportamento humano é extremamente conectado com o meio ambiente essa relação é a chave para ultrapassar o desamparo, seja ele temporário ou contínuo.
Individualmente, cada pessoa possui sob sua pele todas as forças necessárias em sua busca por novas formas de conduta capazes de enfrentar situações ansiogênicas e conseguir consequências mais satisfatórias e felizes. A começar por sua capacidade de raciocinar sobre as diversas situações que se apresentam, sentir-se feliz ou não e buscar formas de conduta que melhor lhe garanta realizações desejadas no futuro. Reforçando essas formas de conduta e construindo um fluxo de comportamentos mais saudável.
Organizacionalmente, gestores podem criar um ambiente de relacionamentos no trabalho mais empreendedor, praticando um modelo de liderança mais claro e objetivo de forma a incentivar a participação das pessoas, individualmente e em grupo, na definição de estratégias e comportamentos capazes de produzir realizações excepcionais, reconhecimento e felicidade.
Embora o desamparo seja um padrão de comportamento emocionalmente frustrante e ansioso, ele também é oportunidade para a busca de conhecimentos novos, práticas mais ousadas e criativas capazes de garantir realizações excepcionais!
Pense nisso!
LAUTER F. FERREIRA
AYRES & FERREIRA LTDA.
Psicólogo – CRP-06/09138-0
Autor dos livros “Construindo Equipes de Alta Performance”;
“Alta Performance: Sete Forças Sob Sua Pele”;
“Autocontrole: Para uma vida realizadora e feliz”.
lauterferreira@ayreseferreira.com.br
www.ayreseferreira.com.br